UMA ANÁLISE PSICOLÓGICA SOBRE A SÉRIE “BEBÊ RENA” 

POR ÉRICA MACHADO – PSICÓLOGA
 A série Bebê Rena, disponível na plataforma Netflix, tem repercutido entre os espectadores. Entretanto, para além de “perturbadora” ou “repugnante” – adjetivos já atribuídos à série – a trama é um prato cheio para a discussão sobre saúde mental. Antes de tecer alguns comentários, já emito um alerta de spoiler sobre esta trama que, apesar do tema do assédio e da perseguição – que ganham uma dimensão ainda maior no mundo cibernético – , dá também grande visibilidade aos desafios dos traumas emocionais profundos e suas distintas expressões. A série trata de um homem chamado Donny, que é severamente perseguido por Martha, uma stalker já conhecida pela polícia.
Com autoestima baixa e carente emocionalmente, ele encontra-se confuso em relação à Martha. Esta, desde a primeira conversa, lhe oferece grandes doses de atenção e validação, o que o deixa motivado, mas o comportamento de buscá-lo exageradamente, criando ilusões sobre o vínculo que estão formando, também o assusta. O personagem, preso no dilema e sem conseguir desvencilhar-se, atenua as perseguições sofridas, demorando a denunciar e chegando até mesmo a sentir falta da sua perseguidora em vários momentos. Sua vulnerabilidade psicológica e suas faltas emocionais denotam uma co-dependência do seu algoz.
 Mas por que ele não consegue dar limites a algo claramente nocivo? E é aí que vamos descobrindo que, anos antes, Donny foi severamente abusado psicológica e sexualmente por um homem que ele achava que seria um grande parceiro de negócio; alguém que finalmente havia reconhecido o seu talento e lhe estendido a mão. Sua débil estrutura emocional, que remonta à sua história familiar, o havia tornado alvo fácil para predadores. Martha também carrega traumas profundos, mas que se manifestam de forma diferente: ela se torna não alvo de perpetradores, mas se torna perpetradora.
Do ponto de vista de uma identidade massacrada, vemos uma inegável identificação os personagens. O trauma deixa marcas profundas no indivíduo, debilitando sua saúde mental. No caso de Donny, sua parte ferida é reprimida no inconsciente e ganha autonomia. “Dessa vez, serei amado” é a falácia que ele arma para si mesmo, mas que o enreda numa relação que não pode oferecer o que ele busca, terminando por repetir o ciclo do abuso. Donny vê o malefício do vínculo, mas não resiste a esperar do outro a consideração que ainda não desenvolveu por si mesmo.
É uma mulher trans, na trama, que ressoa sua parte saudável, mostrando um caminho de autocuidado, que ele não sustenta por divergir das relações nocivas que ele conhece. O trauma é algo capaz de tornar difícil para uma identidade ferida receber amor. O caminho tortuoso que Donny percorre, passando pelas sequelas e elaborações de suas experiências, torna cada episódio mais um degrau numa história nada linear sobre o manejo do trauma emocional e os desafios na busca da saúde mental. O personagem, que é também quem passou por tudo isso na vida real, parece encontrar na arte de contar sua história em forma de série um caminho para a sua redenção.