Brasil ganha 12 milhões de idosos em 12 anos e amplia demanda por geriatria


Com expectativa de vida de 77,3 anos no Ceará, envelhecimento exige mudanças na assistência hospitalar. Em Fortaleza, Hospital Cura d’Ars, da Rede São Camilo, adota modelo especializado com prioridade para pacientes a partir dos 80 anos

 

O Brasil ganhou mais de 12 milhões de idosos em pouco mais de uma década, uma transformação demográfica que já modifica a demanda por serviços de saúde e exige dos hospitais novas estratégias de atendimento. Segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), divulgados em dezembro de 2025, a população com 60 anos ou mais passou de 22 milhões, em 2012, para 34,1 milhões, em 2024. O crescimento de aproximadamente 55% evidencia a necessidade de uma assistência médica que considere não apenas o tratamento de doenças, mas também a preservação da autonomia e da qualidade de vida.

No Ceará, a expectativa de vida chegou a 77,3 anos em 2024, superando a média nacional de 76,6 anos, conforme dados do IBGE divulgados em 2025. O aumento da longevidade traz novos desafios para a rede hospitalar, especialmente diante da maior frequência de doenças crônicas, limitações funcionais e condições clínicas que exigem acompanhamento de diferentes especialidades.

A Organização Mundial da Saúde (OMS), em publicação atualizada em outubro de 2025, estima que o número de pessoas com 60 anos ou mais no mundo chegará a 1,4 bilhão em 2030. Até 2050, a população acima dos 80 anos deverá praticamente triplicar em relação a 2020, alcançando 426 milhões de pessoas. O cenário exige serviços de saúde capazes de oferecer atendimento integrado, individualizado e voltado à manutenção da capacidade funcional.

Em Fortaleza, o Hospital Cura d’Ars, da Rede São Camilo, passou a contar, desde julho deste ano, com uma área de internação dedicada à geriatria. A estrutura integra o Modelo Assistencial do Paciente Idoso, desenvolvido para atender às necessidades clínicas e funcionais dessa população, com prioridade para pacientes de 80 anos ou mais.

*Cuidado especializado*

O modelo contempla fluxo prioritário para idosos no pronto atendimento, sala exclusiva de medicação, atendimento de emergência direcionado e acompanhamento multiprofissional durante a internação. A proposta é oferecer uma assistência que considere as particularidades do envelhecimento e reduza os riscos associados à hospitalização.

Para a médica geriatra Lenora Barros, do Hospital Cura d’Ars, a assistência ao paciente idoso precisa considerar aspectos que ultrapassam o diagnóstico responsável pela internação. A avaliação integral permite identificar condições que podem comprometer a recuperação, mesmo quando o problema clínico apresenta melhora.

“Quando um idoso é internado, nossa preocupação não deve estar apenas na doença que o levou ao hospital. Precisamos avaliar sua mobilidade, cognição, alimentação, os medicamentos que utiliza e, principalmente, sua capacidade de manter a autonomia. O objetivo é que ele receba alta com as melhores condições possíveis para retomar sua rotina”, explica a geriatra.

Entre as condições que exigem atenção estão a perda de força muscular, o risco de quedas, a desorientação e as alterações cognitivas. Esses problemas podem surgir ou se agravar durante a hospitalização, especialmente entre pacientes mais frágeis ou que permanecem longos períodos no leito.

A OMS identifica a fragilidade, as quedas, o delirium — estado de confusão mental aguda — e as lesões por pressão entre as síndromes geriátricas que demandam atenção específica. O reconhecimento precoce dessas condições permite orientar medidas preventivas e reduzir a possibilidade de complicações.

No Cura d’Ars, a assistência envolve protocolos direcionados às necessidades dos idosos e acompanhamento integrado desde a admissão até a alta hospitalar. A prioridade para pessoas com 80 anos ou mais considera a maior vulnerabilidade clínica frequentemente observada nessa faixa etária. Os leitos também podem receber pacientes idosos mais jovens, conforme os critérios assistenciais da instituição.

Autonomia

Um dos principais desafios da geriatria é preservar a independência do paciente, mesmo diante de doenças crônicas ou limitações decorrentes da idade. A avaliação geriátrica considera fatores físicos, cognitivos, emocionais e sociais, permitindo identificar riscos que nem sempre aparecem nos exames convencionais.

“Envelhecer não significa necessariamente perder a independência. Existem pessoas com mais de 80 anos que mantêm uma vida ativa e outras, mais jovens, que apresentam fragilidades importantes. Por isso, a idade cronológica, isoladamente, não define as necessidades de cuidado. É fundamental compreender a condição de cada paciente”, destaca Lenora Barros.

A abordagem acompanha uma das principais recomendações da OMS para o envelhecimento saudável: preservar a capacidade funcional, permitindo que as pessoas continuem realizando atividades importantes para sua vida, mesmo quando convivem com doenças ou limitações.

Essa preocupação também modifica o planejamento da alta hospitalar. Além da melhora clínica, é necessário considerar se o paciente consegue caminhar, alimentar-se, administrar medicamentos e realizar atividades cotidianas com segurança, bem como identificar a necessidade de reabilitação ou apoio familiar.

“Uma internação bem-sucedida não pode ser avaliada somente pela resolução do problema clínico. Precisamos observar como aquele paciente sai do hospital, se houve perda de funcionalidade e quais cuidados serão necessários depois da alta. Preservar a autonomia também faz parte do tratamento”, acrescenta a médica.

Novas demandas

O envelhecimento da população também exige mudanças na organização dos serviços hospitalares. Equipes capacitadas, ambientes adaptados, prevenção de quedas, revisão de medicamentos e acompanhamento multiprofissional passam a ter maior importância na assistência a pacientes idosos.

Em fevereiro de 2025, a OMS publicou um estudo sobre cuidados de longa duração em populações envelhecidas, destacando que o crescimento desse grupo amplia a pressão sobre os serviços hospitalares e aumenta a necessidade de alternativas de acompanhamento para pessoas com doenças crônicas ou perda de autonomia.

No Hospital Cura d’Ars, a implantação do modelo geriátrico representa uma reorganização da assistência, com protocolos específicos e estrutura direcionada a pacientes que necessitam de maior atenção durante a internação.

A mudança no perfil etário da população também coloca a prevenção de complicações e a preservação da independência entre as prioridades do atendimento hospitalar, especialmente em uma realidade na qual viver mais exige cuidados cada vez mais individualizados.